Franchising

O franchising brasileiro encerrou 2025 com faturamento de R$ 301,7 bilhões e mais de 202 mil operações ativas. Administrar uma rede nessa escala exige mais do que processos bem definidos.
Para um número crescente de franqueadoras, inteligência artificial, automação e análise de dados deixaram de ser tendência e passaram a fazer parte da rotina operacional. O que os dados da ABF revelam sobre esse movimento merece atenção.
O setor de franquias no Brasil atingiu patamares históricos em 2025.
O faturamento nominal chegou a R$ 301,7 bilhões, representando um crescimento de 10,5% em relação a 2024. São números que colocam o franchising nacional entre os maiores do mundo.
Para além do faturamento, a escala humana e operacional impressiona.
O setor reúne 3.297 redes ativas, 202.444 operações espalhadas pelo país e aproximadamente 1,762 milhão de empregos diretos. Isso equivale a uma cidade inteira vivendo do franchising.
E o crescimento não deu sinais de desaceleração em 2026.
No primeiro semestre de 2026, o setor faturou R$ 149 bilhões, com alta de 9,7% sobre o mesmo período do ano anterior. Só no segundo trimestre de 2026, o crescimento nominal foi de 9,3%, totalizando R$ 76,3 bilhões.
Quando se fala em mais de 202 mil operações ativas, o desafio deixa de ser apenas comercial.
Padronizar processos, monitorar indicadores, comunicar diretrizes e garantir a qualidade da marca em milhares de pontos de venda simultâneos é uma tarefa de enorme complexidade operacional.
É exatamente nesse contexto que ferramentas de inteligência artificial, automação e análise de dados passam a ganhar relevância estratégica para as franqueadoras.
Não se trata de modernidade pela modernidade.
Trata-se de responder a uma necessidade real de gestão em escala — e os dados mostram que uma parcela crescente do setor já está agindo em função disso.
Para entender como as redes estão lidando com esse desafio tecnológico, a Associação Brasileira de Franchising (ABF) conduziu um estudo específico sobre o tema.
A pesquisa se chama “Uso da Inteligência Artificial pelas Redes de Franquias 2025” e traz dados inéditos sobre a adoção de IA no setor.
Participaram da pesquisa 419 respondentes, representando empresas franqueadoras associadas à ABF.
Juntos, esses respondentes somam 64.060 operações, o que equivale a aproximadamente 32% de todas as operações do setor.
Trata-se de uma amostra expressiva, mas é importante ter isso claro: os resultados refletem as respostas das franqueadoras participantes, não do universo completo do franchising brasileiro.
Ao longo deste artigo, todos os percentuais apresentados se referem exclusivamente às empresas que responderam à pesquisa.
Extrapolar esses dados para a totalidade do mercado seria um erro metodológico.
A amostra é relevante e representativa de uma fatia significativa do setor, mas há segmentos, portes e regiões que podem apresentar realidades bastante diferentes das captadas pelo estudo.
Feito esse esclarecimento, os dados oferecem um panorama valioso sobre como as franqueadoras mais engajadas com a ABF estão encarando o tema da inteligência artificial — e esse retrato já é, por si só, muito informativo.
A pesquisa da ABF identificou três estágios distintos de adoção de IA entre as franqueadoras pesquisadas.
Os números mostram um setor em movimento, mas ainda heterogêneo.
37% das franqueadoras declararam estar em fase de testes com inteligência artificial. Ou seja, estão explorando ferramentas, conduzindo experimentos internos, mas sem implementação consolidada.
22% relataram uso não estruturado — já utilizam IA de alguma forma, mas sem processos formalizados, políticas definidas ou governança clara sobre como e onde a tecnologia é aplicada.
26% afirmaram ter uso estruturado de IA, com aplicações integradas à operação e processos bem definidos de adoção.
A fase de testes é o ponto de entrada. A rede experimenta, avalia resultados em pequena escala e decide se avança ou não.
O uso não estruturado é comum em organizações onde colaboradores individuais ou equipes adotaram ferramentas por conta própria, sem que a franqueadora tenha formalizado uma política corporativa.
Já o uso estruturado indica maturidade. A rede definiu onde, como e com quais objetivos a IA atua — e tem processos para monitorar os resultados.
O porte e o segmento da rede influenciam diretamente o estágio de adoção.
Redes maiores, com mais recursos e equipes de tecnologia, tendem a chegar ao uso estruturado com mais rapidez. Redes menores muitas vezes ainda estão na fase de entender o que a IA pode oferecer concretamente para o seu modelo de negócio.
Dentro das franqueadoras que participaram da pesquisa, duas categorias de ferramentas se destacaram com ampla vantagem sobre as demais.
Chatbots e assistentes virtuais foram mencionados por 75% dos respondentes como ferramentas de IA já utilizadas nas redes.
Ferramentas de IA generativa de texto — como assistentes de escrita e geradores de conteúdo — aparecem logo em seguida, citadas por 71% das franqueadoras pesquisadas.
Chatbots e assistentes virtuais automatizam interações repetitivas.
No contexto de uma rede de franquias, isso pode significar desde o atendimento ao cliente nas unidades até o suporte interno da franqueadora para responder dúvidas operacionais de franqueados.
Já as ferramentas de IA generativa de texto aceleram a produção de materiais.
Textos para campanhas de marketing, comunicados internos, roteiros de treinamento, respostas padronizadas — todo esse volume de produção textual que uma rede grande precisa gerar continuamente pode ser agilizado com esse tipo de ferramenta.
Vale reforçar: esses percentuais refletem as respostas da amostra da pesquisa da ABF.
Não é correto ler esses dados como se 75% de todas as franquias brasileiras usassem chatbots. A realidade do setor como um todo é mais diversa e menos uniforme do que qualquer recorte amostral consegue capturar.
Além de identificar quais ferramentas são usadas, a pesquisa da ABF mapeou as áreas de aplicação dessas tecnologias dentro das redes.
Os respondentes podiam indicar múltiplas áreas, o que significa que os percentuais não são excludentes entre si.
Marketing lidera com folga: 83% dos respondentes apontaram essa área como uma das principais aplicações de IA em suas redes.
Materiais internos aparecem na segunda posição, com 62% das indicações.
Atendimento ao cliente foi citado por 55% dos respondentes como área de aplicação.
No marketing, a IA entra na criação de conteúdo, segmentação de públicos, personalização de campanhas e otimização de anúncios.
Para uma rede com centenas de unidades, padronizar a comunicação da marca sem perder relevância local é um desafio constante — e as ferramentas de IA têm oferecido apoio nesse equilíbrio.
Nos materiais internos, a tecnologia apoia a produção de documentos, manuais, apresentações e comunicados que precisam chegar às unidades de forma clara e consistente.
No atendimento ao cliente, o uso vai desde bots de primeiro contato até ferramentas de análise de conversas e gestão de filas de atendimento.
Em todos os casos, vale a mesma leitura cuidadosa: esses percentuais descrevem o que as franqueadoras pesquisadas relataram, não uma realidade uniforme de todo o setor.
Um dos maiores desafios de qualquer rede de franquias é garantir que a mensagem da franqueadora chegue intacta a cada unidade — independentemente de onde ela esteja.
Isso vale para comunicados operacionais, atualizações de processos, campanhas de marketing e, especialmente, para o treinamento de equipes.
Plataformas digitais de treinamento (e-learning) permitem que franqueadoras distribuam conteúdo padronizado a franqueados e suas equipes sem depender exclusivamente de visitas presenciais ou reuniões ao vivo.
Com o apoio de ferramentas de IA, é possível personalizar trilhas de aprendizado, identificar lacunas de conhecimento e automatizar lembretes e avaliações.
Na comunicação interna, aplicativos, portais e sistemas integrados reduzem a dependência de e-mails dispersos e comunicações informais.
A padronização de processos também se beneficia dessas ferramentas.
Quando a franqueadora documenta seus procedimentos em plataformas digitais acessíveis e atualizáveis, o franqueado tem um ponto de referência claro — o que reduz interpretações equivocadas e desvios operacionais.
A pesquisa da ABF indica que materiais internos foram citados por 62% dos respondentes como área de aplicação de IA, o que confirma que as redes enxergam nesse campo uma oportunidade concreta de uso da tecnologia.
Mas é importante dizer: tecnologia não substitui a cultura da marca.
Ela pode apoiar a transmissão dessa cultura — por meio de vídeos, módulos interativos, comunicações segmentadas — mas o trabalho de construção e manutenção do DNA da rede continua sendo essencialmente humano.
Gerenciar uma rede de franquias sem dados confiáveis é como dirigir sem painel de instrumentos.
Você pode avançar, mas não sabe a que velocidade, com quanto combustível e para onde o carro está derivando.
A análise de dados entra exatamente aí: como o painel que permite à franqueadora enxergar o que está acontecendo em cada unidade, em tempo real ou próximo disso.
Na pesquisa da ABF, 41% dos respondentes apontaram o apoio à tomada de decisão como um dos benefícios percebidos com o uso de IA.
Esse número mostra que o valor da tecnologia vai além da automação de tarefas.
A capacidade de consolidar indicadores de desempenho, identificar desvios e gerar relatórios comparativos é percebida como uma contribuição real pelas franqueadoras que já avançaram nesse caminho.
Uma franqueadora com acesso a dados consolidados das unidades pode identificar, por exemplo, quais lojas estão com ticket médio abaixo da média da rede, quais têm maior rotatividade de equipe ou quais apresentam queda de faturamento em determinado período.
Esses insights permitem uma atuação mais rápida e direcionada por parte dos consultores de campo.
Mas é fundamental deixar claro: a tecnologia apoia a decisão humana, não a substitui.
Algoritmos identificam padrões e geram alertas. A interpretação do contexto, a conversa com o franqueado e a construção de um plano de ação continuam sendo responsabilidades das pessoas.
A pesquisa da ABF perguntou às franqueadoras participantes quais benefícios perceberam com o uso de inteligência artificial.
Os resultados mostram um conjunto variado de ganhos percebidos — e é importante ler esses dados como percepções relatadas, não como resultados comprovados e universais.
Os principais benefícios apontados pelos respondentes foram:
O aumento de produtividade lidera com folga. Isso faz sentido quando se considera que boa parte das aplicações relatadas envolve geração de conteúdo, automação de atendimento e produção de materiais internos.
Tarefas que antes consumiam horas passam a ser executadas em minutos.
A automação de tarefas repetitivas está diretamente ligada a esse ganho: quando a IA assume atividades mecânicas e previsíveis, as equipes podem direcionar energia para trabalhos que exigem julgamento e criatividade.
A melhoria no atendimento ao cliente reflete o uso de chatbots e assistentes — que aumentam a velocidade de resposta e a disponibilidade de suporte.
Dito isso, esses são benefícios percebidos pelas empresas que responderam à pesquisa.
Não há como afirmar, com base neste estudo, que todas as redes que adotarem IA obterão os mesmos resultados. Contexto, porte, ferramentas escolhidas e maturidade de implementação fazem toda a diferença.
Adotar tecnologia em uma rede de franquias não é simples — e a pesquisa da ABF não ignora isso.
Os respondentes também foram questionados sobre as barreiras que enfrentam para avançar no uso de IA.
Os três obstáculos mais citados foram:
A falta de conhecimento técnico interno é a barreira mais comum — e talvez a mais estrutural.
Adotar IA sem uma equipe que entenda como configurar, monitorar e ajustar as ferramentas é uma receita para resultados frustrantes. Isso afeta especialmente redes menores, que muitas vezes não têm times de tecnologia dedicados.
A dificuldade de integração com sistemas existentes é um problema técnico com impacto real.
Muitas redes operam com ERPs, sistemas de PDV e plataformas de gestão que não foram projetados para se comunicar com ferramentas de IA modernas. Integrar esses ambientes exige tempo, investimento e, frequentemente, suporte especializado.
Os custos de implementação são uma barreira especialmente relevante para franqueadoras de menor porte.
Licenças de software, consultorias de implantação e horas de desenvolvimento têm um preço que nem sempre está dentro do planejamento financeiro de redes em fase de crescimento.
Essas barreiras moldam o ritmo de adoção tecnológica no setor — e explicam, em parte, a convivência dos três estágios de maturidade identificados na pesquisa.
Automação é uma das palavras mais usadas quando se fala em tecnologia para franquias — mas ela precisa ser entendida com precisão.
Automação funciona bem em processos repetíveis, bem definidos e com regras claras.
Em uma rede de franquias, há muitos processos que se encaixam nessa descrição: disparo de comunicações segmentadas, geração de relatórios periódicos, respostas a perguntas frequentes de franqueados, atualização de cadastros e monitoramento de indicadores predefinidos.
Esses são processos que consomem tempo de equipes qualificadas sem agregar valor proporcional — e que a automação pode absorver com eficiência.
Governança, supervisão e tomada de decisão estratégica continuam sendo responsabilidades humanas.
Uma franqueadora não pode automatizar a decisão de renovar ou não um contrato de franquia, a condução de uma conversa difícil com um franqueado em dificuldades ou a definição do posicionamento da marca em um novo mercado.
Também é importante evitar a conclusão apressada de que automação leva necessariamente à redução de equipe ou ao crescimento de faturamento.
Os dados disponíveis mostram benefícios percebidos em produtividade — mas não estabelecem relação causal direta entre automação e resultados financeiros específicos.
O papel da tecnologia é liberar capacidade humana para atividades de maior valor, não substituir as pessoas responsáveis pela saúde da rede.
Quanto maior a rede, maior a complexidade.
Uma franqueadora com 20 unidades consegue, em tese, acompanhar a operação de cada loja de perto. Com 200 ou 2.000 unidades, essa lógica deixa de funcionar.
Conforme a rede cresce, surgem desafios que não existiam na fase inicial.
A comunicação precisa chegar a mais pessoas, em mais lugares, com mais consistência. Os desvios operacionais se multiplicam. A padronização exige mais esforço. E as decisões precisam ser tomadas com mais rapidez, com menos tempo para reuniões e visitas presenciais.
É nesse ponto que ferramentas de análise de dados e automação passam a ser não apenas úteis, mas necessárias.
Dashboards consolidados permitem que a franqueadora visualize o desempenho de todas as unidades em uma única tela.
Alertas automáticos sinalizam quando um indicador sai do padrão esperado.
Plataformas digitais garantem que o mesmo material de treinamento chegue simultaneamente a todas as equipes.
Tecnologia apoia o crescimento — mas não o substitui.
Uma rede que cresce em número de unidades sem fortalecer sua equipe de consultoria, seus processos de governança e sua estrutura de suporte ao franqueado não resolve esses problemas com software.
Os dados disponíveis não permitem afirmar que a adoção de IA elimina a necessidade de estruturação humana.
O que é possível dizer, com base na pesquisa da ABF, é que as redes que avançam no uso de tecnologia tendem a ampliar sua capacidade de gestão — e essa capacidade ampliada pode apoiar o crescimento sustentável.
Tomar boas decisões no franchising exige acesso a informações confiáveis.
A Franchise Store atua como um ponto de referência para quem busca conteúdo qualificado, dados setoriais e recursos práticos dentro do ecossistema de franquias.
A plataforma reúne informações relevantes para diferentes perfis.
Para franqueadores, há conteúdo sobre gestão de redes, tendências do setor, tecnologia e expansão.
Para franqueados e potenciais investidores, há materiais que apoiam a avaliação de oportunidades, a compreensão do modelo de negócio e a tomada de decisão com mais segurança.
O acesso a dados setoriais atualizados — como os publicados pela ABF e analisados neste artigo — é parte do que diferencia uma decisão bem fundamentada de uma aposta no escuro.
Em um setor que movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano e envolve mais de 200 mil operações, a qualidade da informação que orienta cada decisão importa muito.
A Franchise Store se propõe a ser esse ponto de apoio informacional — sem substituir a análise especializada, mas complementando o repertório de quem precisa navegar esse ecossistema com clareza.
Com base nos dados da pesquisa da ABF e no estágio atual de adoção identificado, é possível traçar algumas perspectivas — com a devida cautela.
O cenário atual mostra um setor dividido entre redes em testes, redes com uso não estruturado e redes com uso consolidado de IA.
Esse perfil tende a se transformar nos próximos anos, à medida que alguns fatores evoluam.
Capacitação é o primeiro deles.
À medida que mais profissionais do setor ganhem familiaridade com ferramentas de IA, a barreira do conhecimento técnico — citada por 47% dos respondentes como obstáculo — tende a diminuir.
Integração de sistemas também deve evoluir.
Fornecedores de tecnologia para franquias estão gradualmente desenvolvendo soluções mais integradas, o que pode reduzir a fricção técnica que hoje dificulta a adoção.
Redução de custos é outro fator relevante.
O preço das ferramentas de IA tem caído sistematicamente, o que abre espaço para redes de menor porte acessarem recursos antes disponíveis apenas para grandes operações.
Não há como garantir ritmo, velocidade ou impacto específico dessa transformação.
O que os dados permitem dizer é que a direção parece clara: mais redes, em mais segmentos, tendem a incorporar tecnologia à sua operação — e aquelas que avançarem com mais estrutura e planejamento estarão melhor posicionadas para colher os benefícios dessa transição.
O franchising brasileiro demonstra maturidade crescente no uso de inteligência artificial e dados, ainda que em diferentes estágios de adoção. Os dados da ABF indicam benefícios percebidos e obstáculos reais que merecem atenção estratégica de franqueadores e gestores.
Compreender esse cenário com base em informações confiáveis é o primeiro passo para decisões mais fundamentadas. Explore os dados, avalie o contexto da sua rede e construa uma estratégia tecnológica sustentável.
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